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Como o novo normal impacta na tomada de decisões estratégicas?

Como o novo normal impacta na tomada de decisões estratégicas?

Essa pergunta tem sido recorrente nas diversas reuniões de conselhos de administração de que faço parte. Afinal, quais são os impactos do novo normal que estamos vivendo na tomada de decisões estratégicas? Diante da dúvida, resolvi analisar o cenário e compartilhar um pouco da minha visão e do meu conhecimento sobre o que está sendo discutido.

A economia internacional já estava em desaceleração e, com a pandemia da COVID-19, entrou em recessão. Entre 2011 e 2019, o PIB mundial cresceu cerca de 3,6% ao ano. Entretanto, a guerra comercial da China com os Estados Unidos, questões geopolíticas envolvendo países como Irã, Rússia e Ucrânia e o aumento das políticas protecionistas nos EUA reduziram a velocidade do crescimento. De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), em fevereiro a projeção do PIB mundial previa um aumento de 3,3%. Em abril, caiu para -3%.

No cenário nacional, a economia estava em um processo de recuperação, interrompido com a disseminação do novo coronavírus. Hoje, o Brasil enfrenta recessão econômica, desemprego e ausência de uma política de socorro fiscal clara e eficiente para as empresas.

Mesmo em um contexto tão imprevisível como este, a crise é uma oportunidade para refletir e buscar ações para que os negócios fiquem mais robustos e menos vulneráveis as situações como esta. Apesar de difícil, é possível pensar estrategicamente para tomar decisões que terão reflexos no futuro. O novo normal traz impactos em todas as áreas de uma empresa – econômica, tributária, estrutura física, cultura organizacional, recursos humanos, projetos futuros, produtos e serviços oferecidos, fornecedores e clientes. Por isso, todos os aspectos devem ser analisados, e ser resiliente é imprescindível para superar os desafios.

Levando em consideração essas informações, o que está na agenda dos conselhos?

Nas reuniões, os principais questionamentos estão relacionados a três pontos principais:

  • Fluxo de caixa.
  • Rentabilidade da empresa no curto, médio e longo prazo.
  • Revisão integral do planejamento estratégico.

O fluxo de caixa envolve a análise das contas a receber, a pagar e a capacidade de renegociar com clientes e fornecedores. Neste cenário, percebo que as empresas estão desenvolvendo habilidades adicionais para movimentar sua cadeia, no sentido de todos estarem realinhando e repactuando suas posições, seja em contas a pagar ou a receber. Isso é muito positivo e é uma atitude que está sendo liderada por diretores com acompanhamento de perto pelos membros do conselho.

A rentabilidade está totalmente vinculada ao fluxo de caixa porque são vasos comunicantes. Uma das preocupações é a empresa fazer não só captações, empréstimos e aumentar alavancagem, mas também levar em consideração sua capacidade de fazer frente a essa nova abordagem, honrando seus compromissos. A premissa é de que o negócio precisa continuar em um novo cenário, mas com rentabilidade, e isso torna necessário ajustar adequadamente o seu nível de endividamento.

Já o planejamento estratégico tem muita relação com as lições que estamos tendo diante dessa crise, ou seja, as empresas estão revendo suas estruturas. A conclusão, em grande parte, tem sido de que elas não precisam de estruturas físicas para reunir equipes em um mesmo local de trabalho. As empresas descobriram o mundo digital – e as que ainda não estavam inseridas nesse contexto estão desenvolvendo ferramentas que permitem o trabalho à distância e até negociações sem a presença física de um vendedor ou consultor de negócios.

O cenário é de uma revisão radical de planejamento de filiais, de viagens e de reuniões. Com isso, as estratégias estão sendo repensadas e não são mais de longo prazo. Os planejamentos estão considerando uma duração menor com o objetivo de fazer uma rápida introdução da empresa nesse novo mundo, nessa era das acelerações. Tudo está mais acelerado, apesar do distanciamento.

Revisão de estruturas, quadros mais enxutos, incentivo a reuniões remotas não só internas, mas com fornecedores e clientes, e a utilização em larga escala das ferramentas digitais, não só de videoconferência, mas de outras prerrogativas, são o cenário que temos agora neste novo normal.

A governança corporativa tem ajudado muito nesse processo de reestruturação, que é urgente e requer decisões rápidas e as mais assertivas possíveis. O que percebo é que as empresas que têm um conselho minimamente estruturado, com um comitê de crise, estão enfrentando melhor os desafios. Conselheiros experientes têm ajudado muito os administradores a guiarem a companhia com o entendimento de alternativas estratégicas. A união da competência dos conselheiros e da equipe de administradores e gestores da empresa está fazendo com que as organizações tenham segurança maior nas decisões que estão tomando em relação ao seu futuro ou à reformulação da sua estratégia.

As empresas que têm uma política de governança têm mais chances de se sair melhor na crise do que suas competidoras. Elas contam hoje com orientações mais precisas e um rico compartilhamento de visões e ideias.

Eduardo José Valério é diretor-presidente da GoNext Governança & Sucessão e participa como membro de diversos conselhos de administração em empresas dos mais variados segmentos, do varejo à indústria, com atuação local e mundial.