por Eduardo Valério
Um dos maiores desafios para a continuidade de uma empresa familiar não está na falta de ferramentas de gestão, na identificação ou na ausência de herdeiros qualificados. O problema surge, na maioria das vezes, em uma dinâmica sutil que costumo chamar de movimento pendular da sucessão. Esse fenômeno acontece quando o próprio sucedido, o fundador ou líder histórico, depois de compreender a necessidade da transição e iniciar voluntariamente o processo, passa a interferir na execução e puxa o controle de volta para as suas mãos.
Iniciar um plano de sucessão exige desprendimento e visão de futuro. No entanto, o desapego ao cotidiano operacional e ao poder decisório construído por décadas não acontece de um dia para o outro. É comum que, diante das primeiras divergências estratégicas ou de oscilações normais do mercado, o sucedido sofra uma espécie de recaída centralizadora. Movido pelo instinto de proteger o negócio, ele reitera ordens antigas, desautoriza o sucessor perante a diretoria ou retoma decisões que já haviam sido delegadas.
Esse movimento de vaivém, em que o pêndulo vai em direção à gestão profissional e retrocede bruscamente para a centralização, traz sérias consequências organizacionais. A primeira delas é a desorientação da equipe executiva, que passa a trabalhar sem saber ao certo quem tem a palavra final. A segunda é o esvaziamento da autoridade do sucessor, que perde o estímulo para inovar e liderar ao perceber que seu espaço de autonomia é apenas aparente.
A interferência do sucedido no processo que ele próprio desenhou não deve ser vista como um ato de má-fé. Trata-se de um sinal claro de que a transição não foi tratada com a importância que o tema demanda, ficando limitada apenas aos campos jurídicos e administrativo, deixando de lado o alinhamento das relações humanas e da própria governança corporativa. O sucedido precisa de apoio para encontrar o seu novo papel na organização. Afinal, afastar-se da operação diária não significa anular a sua importância, mas sim dar um novo significado à sua trajetória.
A solução para equilibrar o pêndulo da sucessão é a formalização de instâncias como o Conselho de Administração ou o Conselho Consultivo como também o Conselho de Familia/Sócios. Nesses fóruns, é possível endereçar e acompanhar corretamente todo o processo e, assim, permitir que o sucedido deixe de ser o executor vitalício para ser atuar como o guardião da estratégia e dos valores da marca. É a governança estruturada que garante uma transição geracional segura, contínua e técnica, impedindo que as inseguranças pessoais coloquem em risco o legado de uma vida inteira.
Eduardo Valério, Fundador e Presidente do Conselho GoNext