*por Eduardo Valério
Ao longo de mais de 30 anos trabalhando com empresas familiares, uma cena se repete. O empresário nos procura em um momento de tensão: um conflito societário que se arrasta, uma sucessão que não pode mais ser postergada, um sócio que quer sair. Em algum ponto da conversa aparece a frase: “Devíamos ter feito isso antes.”
Essa frase resume o problema. A governança em empresas familiares brasileiras, ainda chega como resposta a uma crise, não como parte de um projeto. Governança construída sob pressão nasce com um vício de origem. Os instrumentos são feitos para resolver o que está acontecendo, não para sustentar o que vem depois.
Um conselho criado para arbitrar um conflito entre herdeiros não tem o mesmo alcance de um conselho construído para orientar a estratégia da empresa.
Um acordo societário assinado na ausência do fundador ou no calor de uma crise de liquidez não tem a mesma solidez de um acordo construído com tempo e reflexão. Com isso, o que deveria ser uma solução, com o passar do tempo se transformará na principal fonte de conflito entre os sócios.
Das centenas de projetos que conduzimos, quase todos envolviam organizações com 20, 30, 40 anos de trajetória que só buscaram estruturar a governança quando alguma pressão tornou isso inevitável.
Entendo os motivos que levam a este cenário. O dia a dia de uma empresa familiar é exigente, com isso a governança raramente parece urgente quando tudo está funcionando. O problema é que quando a governança passa a parecer urgente, normalmente já há algo errado.
Nos projetos que conduzimos na GoNext, a diferença entre empresas que chegam com urgência e as que chegam com antecedência é visível. A empresa familiar que estrutura a governança com tempo tem o poder da escolha. Escolhe qual modelo de conselho faz sentido para o seu momento. Define critérios de sucessão antes de precisar aplicá-los. Constrói regras que valem para todos, independentemente do sobrenome, porque não há nenhum conflito específico pressionando por exceções.
Existe uma questão que coloco nos primeiros encontros com empresários: a empresa funciona sem você? Se ele hesitar na resposta, a governança ainda não cumpriu seu papel. Uma empresa que depende de uma única pessoa para manter sua direção não está preparada para o futuro.
Governança não pode ser precificada como um custo de conformidade, pois é o que permite que a empresa continue funcionando quando as condições mudam. Quem trata isso como decisão estratégica constrói com tempo e preserva seu legado. Quem espera a urgência para começar descobre que o tempo era exatamente o que faltava.
*Eduardo Valério, Fundador e Presidente do Conselho GoNext