Governança deficiente é o fator mais subestimado nas crises do agronegócio 

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por Ademar Cardoso 

O agronegócio brasileiro acumula recordes de produtividade. Ao mesmo tempo, os pedidos de recuperação judicial no setor cresceram de forma consistente nos últimos anos. Essas duas realidades coexistem, e a explicação para esse aparente paradoxo raramente aparece nas análises setoriais.

A narrativa mais comum atribui as dificuldades a fatores externos: o clima, a volatilidade das commodities, a taxa de câmbio, o custo do crédito. São variáveis reais, mas são também as mesmas variáveis que empresas do mesmo setor, operando nas mesmas condições, conseguem atravessar sem colapso. A diferença, em boa parte dos casos, está na estrutura de decisão.

Muitas empresas familiares do agronegócio cresceram em escala sem crescer na mesma proporção em maturidade de governança. O processo produtivo se modernizou com biotecnologia, precisão e automação. A mesa de decisão não acompanhou esse ritmo. Quando as margens apertam, a distância entre esses dois mundos se torna operacionalmente insustentável.

O que se observa na prática: empresas sem revisão periódica de fluxo de caixa que só percebem a pressão dos juros quando o problema já é de liquidez. Estruturas onde todas as decisões relevantes dependem de uma única pessoa, o que funciona quando o ciclo é favorável e se torna gargalo quando não é. Patrimônio da empresa confundido com patrimônio da família, sem separação formal de propósito e critério.

Empresas que operam com conselhos atuantes e processos deliberativos claros não eliminam a volatilidade do mercado. Elas constroem capacidade de reação antes que o problema se torne irreversível. Conseguem travar custos, ajustar exposição e reorganizar caixa com antecedência, porque há estrutura para isso, não porque o fundador acordou cedo.

O crédito leu essa diferença antes do setor. Instituições financeiras avaliam hoje a estrutura de governança com o mesmo peso que avaliam o balanço. Não é exigência formal. É percepção de risco. Uma empresa com conselho ativo, acordo societário vigente e processo sucessório estruturado acessa capital em condições distintas de uma empresa equivalente em faturamento, mas centralizada na figura do dono.

O aumento das recuperações judiciais no agro, portanto, não é apenas um reflexo de um ciclo adverso. É um sintoma de um modelo de gestão que ainda não acompanhou a complexidade do setor.

O campo evoluiu. A gestão precisa acompanhar.

Ademar Cardoso, diretor de Mercado da GoNext

Artigo originalmente publicado no AgFeed.

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