Por Floriano Bueno
Tratar governança como linha de custo é compreensível. Honorários de conselheiros, tempo de gestão dedicado a fóruns, investimento em processos que não geram receita direta: tudo isso aparece no demonstrativo e gera questionamento, especialmente quando as margens apertam.
Por outro lado, o custo da ausência de governança raramente aparece no mesmo lugar. Ele se distribui por outros itens: decisões que precisaram ser refeitas, conflitos entre sócios que consumiram meses de energia da liderança, oportunidades perdidas porque não havia instância para deliberar com agilidade, saídas de executivos que perderam a confiança nas regras do jogo, entre outros. Em ambiente estável, esse custo se dilui ao longo do crescimento. Quando o ambiente aperta, ele se concentra de uma vez.
Empresas familiares que chegam a períodos de pressão sem governança consolidada enfrentam um agravante específico: precisam construir o que falta exatamente quando o custo para isso é maior. O processo fica mais lento, os conflitos já instalados dificultam o alinhamento favorecendo decisões intempestivas, e a energia disponível se divide entre o problema externo e o interno. O que seria seis meses em condições normais para se adequar e enfrentar períodos de stress, se torna dezoito meses sob pressão de trabalho com resultado inferior e maiores riscos de continuidade dos negócios.
Quando a governança é tratada como ativo, a pergunta relevante muda. Não é mais quanto custa estruturar, mas qual é o valor de chegar a uma crise com estrutura funcionando. Esse valor é a velocidade e a qualidade decisória quando o tempo importa, a capacidade de preservar patrimônio sob pressão, a possibilidade de tomar decisões estratégicas quando outros só conseguem reagir passivamente.
O que acompanhamos em empresas que passaram por esse processo é que, mesmo as estruturadas, não saem ilesas da turbulência. Mas conseguem deliberar sobre o que fazer com ela, em vez de apenas atravessá-la. Essa diferença, que parece marginal quando tudo vai bem, é o que determina a posição de cada empresa quando o ambiente melhora, seu crescimento e perenidade
Floriano Bueno é diretor Regional da GoNext