por Ademar Cardoso
Em períodos de pressão econômica, a velocidade com que empresas familiares conseguem decidir não é função da coragem de seus líderes. É função da estrutura que existe, ou não existe, para suportar a decisão.
Quando o mercado desacelera, os custos aumentam e as margens ficam pressionadas, muitas organizações acreditam que precisam de líderes mais rápidos. Na prática, o problema costuma ser outro: falta clareza sobre como as decisões devem acontecer.
Empresas familiares com fóruns de deliberação estabelecidos, papéis claros e instâncias definidas conseguem responder a mudanças de cenário em dias. Enquanto isso, outras passam semanas discutindo quem deve decidir, quem precisa ser consultado e quem assumirá o risco da escolha.
Essa diferença raramente aparece em períodos de estabilidade. Quando o ambiente é previsível e os resultados são confortáveis, quase qualquer modelo decisório parece funcionar. O problema é que a maioria das empresas só percebe que a crise chegou quando ela já está instalada.
Existe uma percepção equivocada de que estrutura e agilidade são opostos. Que conselhos, fóruns formais e processos de deliberação tornam a organização mais lenta. A experiência acumulada em mais de 300 projetos aponta justamente na direção contrária.
Empresas com governança estruturada decidem mais rápido porque não precisam resolver dois problemas ao mesmo tempo: o de mérito (o que fazer) e o de processo (quem decide, quem participa e como divergências são tratadas). Quando o processo já está definido, toda a energia disponível é direcionada para o mérito da decisão.
Existe também uma velocidade que apenas parece eficiente: a decisão individual, tomada sem alinhamento, sem consulta e sem registro. Ela é rápida na aparência, mas frequentemente precisa ser revista porque não gerou legitimidade, comprometimento ou capacidade de execução.
A velocidade que sustenta uma empresa em momentos de pressão nasce da clareza sobre papéis, autoridade e instâncias de decisão. E essa clareza não se constrói na urgência.
Governança não elimina as crises. Ela elimina a improvisação durante as crises. E, muitas vezes, essa é a diferença entre reagir e liderar.
Ademar Cardoso é diretor de Mercado da GoNext